quarta-feira, 25 de abril de 2012

Poema de olheiras

Era antes de anteontem...
[Hoje a chuva desce rala
e a pedra sobe o monte]

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Poema de edredon.

Gosto de sono
na tua boca.
Gosto de sonho
em ti toda.

Voz de edredon e
domingo.
Olhos de quem vive
para amanhã.
- a vida que será vivida
não à toa -

(nunca à toa)

Essa, eu deixei
numa curva
quando se podia
dizer que era boa.

Mas esse teu gosto
de vida
faz da vida que
não se vive
em vida que se voa.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Poema desentalado.

I

E se eu te dissesse
palavras mais severas?
Mais do que tanto já disse
(logo me vou,
a vida é um fiasco,
de que vale a pena,
vamos nos amar).

E se te dissesse
entre tantas verdades
somente mentiras torpes
me irias acreditar?

Ah, se eu somente calasse
- o tanto que há pra calar -
e me permitisse apenas o toque
- do que tanto que há por tocar -
talvez que enfim te dissesse
e me permitisse falar
as tais das palavras severas
que em nada parecem com aquelas

doces,
soltas,
francas

que os lábios ensaiam
inquietos,
gagos - os lábios gagos.

Seria frio ou seria ensaio?

II

Mas nada - nada há de
equilibrar essa distância
(se fossem somente os anos,
se fossem somente os planos
desfeitos) -
essa distância mesquinha entre
céu e mar.

Aquilo que vês, bebê, não passa
de ilusão de ótica:
não se tocam nem nunca vão
se tocar.

Então por que isso de ser gente
e imaginar?

III

Eu vi mais de três vezes.

(disse um amigo que é do que
precisa um homem, três amores
em que chafurdar)

Eu vi, eu vi!,
eu vi que se acaba em quase nada
isso de se querer,
isso de no que se apoiar.

No entanto
(porém, eu diria)
no entanto se diz
que viver é a busca,
ainda que brusca,
dum querer bem,
ir sem voltar.

IV

Mas sei que já não cabe
(nunca coube -
acontece -
está-se por estar).

falar as palavras confusas
que nos exige a poesia,
as garatujas e a cinefilia;
e ainda a política
que distancia pra aproximar.

V

As palavras.

Há ainda palavras
que digam e possam dizer?
Há ainda sentido quando
no meio do caminho
(quando no meio do
caminho etc e tal e...
assim que se faz poesia,
Drummond?) -
haverá?

VI

Há a poesia e o
poeta
- a curva, a subida,
o contrário e a reta -

mas o que sobra é o que
se verá

(sempre e sempre e sempre
e...):

a alma desnuda e o
coração cheio;
a pele opaca
e muito receio.

No meio disso,
nada há.

VII

Mas tu sabes de tudo
que não viste
(tens nos anos que
não viveste toda a
arrogância que subsiste
no fato de seres tu mesma).

E quem te põe a mesa
não pensa que és tão triste;
vês mais do que teus olhos
míopes,
a língua rachada diz mais.

É assim que se vive,
penso.

VIII

Tanta lisergia pra quê?
Não há momentos sinceros
nisso de se querer?
a si?

Nisso de se querer pra si
tanto que o mundo quer dar
- e não se pode assumir a dádiva -
(a esmola que se quer apanhar
e é extremamente proibida.

Exercer então o quê na bebida
e no escuro dum quarto-sofá;
numa esquina qualquer escura,
do lado, no meio da rua,
aonde se encostar.

IX

Vive-se bem no Brasil,
donde a puta que nos pariu
- o recheio: a pátria, o sonho,
a alma dum brasileiro -
tanto faz:
vive-se bem por inteiro
ou pelo meio.
Vive-se sem reclamar
disso que é tão feio:
isso de ser brasileiro,
ter boca e não saber falar.

Ouvi! Ouvi!

(não eu, é um reclame na segunda
do plural)

O vexame já se engoliu.

X

Há afinal uma história
e um escrever sem memória -
registro para lembrar.

Há, sem querer,
um limite.
Quem pensar ser gente,
acredite:

por mais longe que se vá
(campo, metrópole, mar)
nunca se chega distante
de onde se quis estar.

XI

Se eu te dissesse palavras
mais severas,
me irias acreditar?

Se te dissesse, ao acaso,
que procurei por mais palavras
do que pelo que dizer;

Que andei por mais distâncias
por onde não quis chegar;

Que cantei canções distantes
que a voz não quis cantar;

Que perdi o sono à noite
pra não ter que acordar;

Que rimei rimas tão toscas.



sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Barone.

A propósito dos dez anos do Palanque Marginal.

foi no banho, onde mais teria sido? pensando em barone, no tanto que tu és, foste, quem sabe ainda seja, tanto tempo distantes, pensando em escrever de verdade, isso de fluxo de consciência que a academia certamente abomina, mas tanto que eu abomino a academia, ora, onde já se viu, mas tanto faz.

acontece que depois de muito pensei em vinícius procurando respostas, talvez.de quando?, ora, um som dos paralamas que eu conheci antes de tanto, corria hum mil novecentos e noventa e oito, acontecia o nove luas, um som que dizia que da cama pro banho, do banho pra sala, o sono persiste etcetera e tal até que então fosse dito que era tudo igual igual igual igual igual.

foi aí ou no cassete do legião urbana, vinte e nove vezes, por que vinte e nove, só por hoje eu saberia. acontece.

mas sempre mais perguntas que respostas, um dia um caminhão e eu pensando que se fosse, seria interessante, o caminhão na minha direção, eu no meio da rua, não foi por medo que eu parei: foi por tesão.

e eu querendo saber de vinícius, de onde a calma. o meu quarto, barone viu, o meu quarto-museu que foi pintado enquanto eu tentava uma vida-teatro em porto alegre, eu já não era mais criança, mas ainda era somente o mesmo, um tanto-faz disfarçado de gente, uma vez fui ator, noutras fui poeta. o tanto-faz veste sempre a roupa da vez.

e a calma. eu pensava: há que ser forte. por quê? forte pra quem? há que ser forte para aguentar a vida, o peso, a tensão, as mulheres que fazem as malas e repetem uma cena de nichols em que se diz eu não te amo mais, como se a cena em si recompensasse a perda, como se a vida fosse cinema: vinícius foi sempre real demais!

e a ânsia das perguntas nunca feitas: não dói, vinícius, ser sóbrio? não dói amar somente uma mulher? e te ver num pequeno, teu filho, e ver ali teu pai também, como é? vinícius que recusou lobo antunes pelo peso que eu sei que é imponente e me devolveu o cus de judas dizendo que não fazia lá seu estilo, prefere leituras mais práticas.

ah, a poesia. eu que já fui poeta, já fui casado, já fui veado, já fui cantor de cabaré (?). eu que somente escrevo porque somente o texto pode fazer sentido e sinto que somente a literatura pode fazer ruir a alma dum homem sadio. a poesia é a grande verdade dos fracos que ali se apóiam e ali se fazem – o que realmente gostariam e não podem ser.

mas onde eu queria chegar com tudo isso? ah sim. dizer que o texto é necessário. não faz o menor sentido, mas é necessário. a academia já morreu há tanto tempo, a literatura decompõe-se tão lentamente, sente o cheiro?, mas isso de ser gente continua, isso de se mostrar assim nu, assim homem mulher o que seja, isso não para. e se escrever é a masturbação de quem se sabe, ler seria afinal o quê? a continuidade sem sentido algum de coisa nenhuma? pois é.

no entanto (ah, no entanto, sempre um porém), escrever-se para si e se ler no outro é o que nos faz humanos, nos faz sabidos, nos faz o que tanto lamentamos ser mas de onde nunca fugimos.

conheci barone antes de mirisola, quase ao mesmo tempo em que sartre, camus, pra nizan vir tão depois e tantos outros. mas nenhum deles pessoalmente. melhor assim: nenhum de verdade.

então percebo: é necessário dar nó nessa corda, enfrentar o final de um texto escrito sem dúvida a contragosto. não sei lidar ainda com o tempo e com as marcas do tempo – dez anos – mas termino dizendo assim:

procurei em vinícius uma resposta, sempre procurei. e por que falo dele aqui? porque ele me responde. quanto a ti, meu amigo, tu és incapaz de fazê-lo e, tenho certeza, vem daí a glória deste palanque marginal: a interrogação necessária, um contínuo abrir de olhos, uma fraternidade fora dos eixos.

sem sentido como a poesia. esta que pra nada serve. esta que é reflexo da vida. e por isso mesmo, fundamental.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Poema duma quinta-feira chuvosa.

Eu queria ter o poder de pedir
para deixar de tirares meu sono.
Eu queria ter.

Eu queria ter a vergonha de
te falar do tanto da falta que
eu sinto.
Eu queria.

Mas quando me vem teu sorriso
(o clichê do sorriso, eu penso,
sempre se fala em sorriso)
de Curinga pueril;
os olhos de pantera que
parecem não ser teus

Quando enfrento o travesseiro
e me acordo dum sono febril,
me levanto e escrevo um poema
(o clichê do poema, penso eu)
pra tentar resolver o dilema

de quem és tu.
do que sou eu.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Poema só para ela

A ferida de debaixo
do teu queixo,
A ferida de debaixo
dos teus olhos
Já pararam
- tanto tempo -
de sangrar.

Mas o que te sangra
bem aí, bem dentro
(que é grito, dor, amor,
tesão, tormento)
como faço pra
parar de machucar?

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Sobre isso de dez anos.

eu bem poderia fazer novamente o que vim fazendo todo esse tempo, agora eu sei quanto custam dez anos de uma vida vivida em função de datas, de nomes, de lembranças a que ninguém dá o devido valor, eu gastei toda a minha mirrada fortuna interior de pensamentos pensando, pensando, se tivesse investido mais além, quem sabe estivesse rico. de mais lembranças.

as fotografias e os dilemas. poema dia-sim-dia-não para dizer o quê, para quem, tanto faz. nunca fez sentido isso de futuro próspero que nos fizeram engolir, dias idos, com pão e café com leite, uma mesa de oito lugares em que se repartia a comida, em que se repartia partes de vidas, em que não se repartia nada mais do que o ar que se respirava.

acontece que não adianta tentar escapar para a europa de lá ou para a europa que nos enfiaram cu adentro aqui mesmo, não há escapatória, a não ser abstrair, mas abstrair como - se tudo sempre nos remete a. e há quem não canse de ouvir o que aconteceu nos idos de hum mil novescentos e noventa e nove, nos idos do ano dois mil, minhas histórias repetidas das noites de bebedeira, há quem não canse de ouvir não por interesse. por pena.

era uma cidade, era uma escola. a escola sempre foi maior do que a cidade e caminhar pelas alamedas e fitar as árvores e se recostar no gramado era sentir-se abraçado pela realidade que inexiste por incapacidade de existir. o mundo, aqui, não é o mundo que aprendi. nunca me refiz da perda: oito pessoas por mesa, doze mesas no refeitório, um pedaço de carne para cada um, aos sábados cachorro-quente.

como merda, quando se pisa nela, quando se escorrega nela, quando se come. fede. o mundo, este mundo, não nos permite, nunca me permitiu repetir a irmandade fabricada, as amizades que surgiam para aplacar a dor de uma separação inevitável e nunca antes experimentada até que finalmente acontecesse. aconteceu. o resto são cacos.

tenho aqui esse saco velho - esse corpo que se assemelha a um saco velho - onde guardo os cacos, dez anos se passaram e acumularam-se os cacos. não há mosaico capaz de remontar. não há como remontar-me a mim próprio.

reencontro para assomar ao desencontro. solidariedade para com a minha solidão. eu ainda caminho pelas alamedas, eu ainda deito nos gramados, eu ainda beijo uma adolescente excitada sob as árvores de uma pequena praça. eu ainda abraço o abraço dos irmãos que não tive, que então tive e que enfim perdi. eu ainda abaixo os olhos diante do alemão opulento e torto e vermelho que me torturava a vida por eu ser um menino triste.

eu sou apenas um menino triste se que esqueceu de crescer. e sempre retorno àqueles tempos, sem querer. menos quando o conhaque queima.

até mesmo quando o conhaque queima. assim.